(Inédito)
“Era um homem com sombra de cachorro
que sonhava ter sombra de cavalo”
Affonso Romano de Sant’Anna
É sábado, mas poderia ser segunda ou terça, que os dias são todos iguais no pensamento de João Marcelo. Há sempre algo por fazer, e o sono mesmo é um compromisso agendado, curto, de hora marcada. O fim de semana mantém esse nome tão-somente por força do hábito. De verdade, a semana – e com ela o mês, este ano e os próximos – não têm fim, vive-se o mesmo dia ocupado, e se neste sábado João Marcelo não vai ao escritório, não quer dizer que por sua cabeça passe qualquer ameaça de diversão.
“Divirto-me no dia-a-dia, enquanto trabalho.” E é verdade.
Mesmo na manhã de sábado, o despertador toca. Um pouco mais tarde, é fato, mas precisa tocar, do contrário dorme-se a manhã toda, e à noite vai-se empurrando a hora de dormir pela madrugada, e já o domingo é impossível antes das onze, e a segunda, dia de branco, é dia de atraso ou de manhã nublada por bocejos. Mau humor não. Trabalho é trabalho.
João Marcelo levanta-se num semipulo: o corpo sabe com precisão de onde chama o despertador, vilão familiar. Sentado de volta na cama, o corpo agora hesita. Já desligado, o despertador pende da mão direita, e os olhos por trás do cabelo cacheado pousam na pilha de roupas sujas e revistas meio lidas na cadeira junto à cômoda. Uma das fronhas verdes, presente de sua mãe, quase toca o chão. João Marcelo pensa na faxineira que não veio, e decide que o chão está sujo demais para a fronha. A caminho do banheiro, dobra a ponta de chenile por cima de uma revista.
Ao se olhar no espelho, João Marcelo sabe que desta semana não pode passar o corte de cabelo. “Este sou eu...”, pensa, sem ânimo para completar a frase. Os versos que leu à noite o assaltam, e quer ter sombra de cavalo. Sua alma ensaia um galope, mas ele começa a rememorar o que tem para fazer ainda hoje, neste sábado entre tantos, que bem podia ser uma segunda, não fosse ter levantado um pouco mais tarde e não ter que ir para o escritório. Enquanto escova os dentes, resigna-se com sua cara de cão. João Marcelo quer ir para a África.
“Não tenho tempo nem para o que é importante.” Diz para o espelho manchado. E entra no banho.
O banheiro é um corredor estreito, que leva ao box. A porta de vidro fumê está rachada na base. Atrás dela, João Marcelo escolhe um entre as dezenas de shampoos dispostos no pequeno parapeito do balancim – the window sill, repete para si. A porta do box está semi-aberta, porque a fechadura está quebrada. Mas não o suficiente para molhar o tapete de retalhos sobre o piso frio de cor puxando ao marrom. A mulher de João Marcelo, que escolheu o tapete e dispôs os shampoos, faz um curso aos sábados. São dela os três potes de plástico sobre o mármore amarelado da pia, e foi ela quem bordou a toalha de mão cor-de-rosa que está naquele aro meio solto, que um parafuso pequeno demais tenta manter na parede.
Pendurada em um gancho preso ao batente da porta do box por uma ventosa, há uma esponja de banho em forma de elefante, que João Marcelo não usa. Ou usa muito pouco, para agradar a mulher ou quando aparece aquela pele mais dura, quase sempre mais escura, por trás do tendão de Aquiles. “Ele sim, viajou em grande estilo”, diz João Marcelo, pensando de Tróia para o Mediterrâneo, do Mediterrâneo para a África e da África para a classe comercial dos aviões de carreira. E dos aviões de carreira para os compromissos da semana que vem: nenhuma viagem.
João Marcelo chegou a colocar a bermuda, e agora está em frente à geladeira branca, que ostenta orgulhosa uma miríade de ímãs retratando cidades em três continentes. “Não queremos negócios de hotel”, ouviu a voz do representante de Angola novamente. “Queremos que os investidores criem raízes em nosso país, invistam em nossos jovens”. O pensamento voltou para o safári fotográfico no Quênia. Sob o ímã de Oslo, a esposa tinha deixado um bilhete. Havia se esquecido de fazer o jogo da loteria, pedia desculpas, que João fosse até a lotérica, porque fechava antes do fim da aula, que agradecia, que mandava beijos, que o amava. Que o amava, bem o sabia João. Mas tinha tido a semana toda para fazer isso. Que o amava, sim, mas agora aparecia com essa, para atrasá-lo. João resmungou e foi trocar de roupa. Não saía de chinelo na rua, e não usava tênis com bermuda.
João Marcelo é um homem de trinta e tantos anos que está aborrecido por ter que sair de casa no sábado de manhã para ir à lotérica. Já de calça, abriu um tanto bruscamente duas das portas do armário embutido do quarto de casal, mantendo-as abertas – wide open – com os braços em cruz. Não achou justo sujar uma camisa de trabalho para ir à lotérica. Não quis usar uma das camisetas de ficar em casa. “Melhor usar a camisa de ontem, se ainda não estiver de molho”. Achou a camisa amarrotada sobre a máquina de lavar, também branca, na área de serviço. Ao ver o varal, lembrou-se de que há três semanas a mulher pede que o conserte. Sacudiu a camisa, de um verde-claro ainda mais esmaecido pelo uso, na tentativa de alisá-la. Vestiu-a e, passando as palmas das mãos sobre o tecido, deu-se por satisfeito com o resultado e foi à caça do volante para a aposta.
O casal sempre joga na mesma combinação de números, para “facilitar a vida da sorte”, como dizem um para o outro. E fazem planos quando o prêmio acumula. Os de João Marcelo são tarefas: estudar grego, fazer um doutorado fora, investir na empresa. Pensa em comprar um barco, às vezes. Ir à África de barco, mais raramente. Mas em seguida sente uma ponta de culpa porque esses sonhos não envolvem trabalho. E justifica para si mesmo as férias que pode vir a tirar.
João está pronto para sair. A camisa verde sobre uma calça jeans, tênis velhos. O relógio de pulso, de mostrador digital, com cronômetro e seis alarmes. O cabelo, agora penteado, em ondas castanhas sobre a testa levemente vincada. Põe a carteira no bolso da calça e ruma para a porta, com as chaves balançando na mão esquerda e o volante do jogo, já preenchido desde sempre, na direita. No caminho para a sala, incomoda-o sair apenas com aquele papelucho nas mãos, já que as chaves irão para o bolso da calça assim que a porta for fechada. Tem a idéia de colocar o volante dentro de alguma coisa, para não amassar, para não perder, e para que não vejam que vai jogar na loteria. Uma revista. Não, um livro. De frente para a estante, João Marcelo escolhe, pelo tamanho, um entre seus livros de poemas: o menor e mais leve que proteja o volante. Este. É perfeito. Mas João tem receios. Não quer arriscar que o livro lhe caia das mãos na rua, é precioso. Este, então: é um pouco mais largo, mas não tão alto. Coloca o volante entre as páginas e vai saindo, percutindo as chaves como castanholas.
Antes de abrir a porta, João Marcelo considera o livro que escolheu. Presente de uma amiga, o livro não é mau. Foi escrito por um outro amigo dela, a quem João foi apresentado numa festa. João balança o livro com a ponta dos dedos, pensando que pode encontrar alguém que lhe pergunte sobre ele, e resolve que não quer ter que falar bem do que o outro escreveu. Melhor voltar, trocar o livro. Pronto, este aqui. Um livro lido pela metade mas inteiramente ruim. João o ganhou em um sorteio durante um sarau, e portanto o livro está autografado. Perfeito para transformar alguma eventual conversa em troca de amenidades, já que o autor é célebre. Assim engalanado, João Marcelo finalmente fecha atrás de si a porta do apartamento, e aperta o botão para que venha o elevador.
João Marcelo pensa em escrever um livro. E outro. Sobre a África também. Mas sabe que não terá tempo para isso. Talvez quando se aposentar. À saída do edifício, o porteiro o cumprimenta com alegria. Comentam um jogo que João não viu. João Marcelo é treinado para isso pela empresa, mas nesse caso o faz com sinceridade. Mais tarde, descendo a rua, pensará que a alegria e a torrente de palavras com que o porteiro o recebeu podem muito bem ter sido uma forma de não tocar no assunto do dinheiro que tomou emprestado, e que prometera pagar até a sexta-feira que foi ontem, e que de certa forma, salvo esta interrupção para ir à lotérica, continua hoje.
Um céu sem janelas, cinza, contudo claro, está suspenso sobre o mundo e sobre João Marcelo, que desce a rua com seus pensamentos. Com um deles, contornou duas esquinas. Com um outro, aquele sobre a sinceridade do porteiro, não chegou sequer a cobrir a extensão da fachada deste prédio. João é um homem alto e tem os passos firmes, resolutos, talvez, não fosse que o impacto suavemente marcial, que mal se percebe, é na verdade fruto de ser a sua perna esquerda um quase nada menor que a direita. Um problema de coluna, talvez. Imperceptível, na prática, e em especial por não ser incomum que se tome por firmeza o que é desequilíbrio. Incógnito, portanto, o andar de João o leva, e ele a um outro pensamento, já a contornar a praça.
Ia pensando em trabalho, no quanto tinha por fazer, nas metas por atingir. Que algum sacrifício é necessário, que a esposa – que bom – compreende. Que o príncipe Sidarta... que o nome Sidarta significa, lera sobre isso, “cumprimento da meta”, meta, embora, não expressa em indicadores de desempenho, corrige-se. Que o príncipe Sidarta, para que viesse a ser o Buda, deixara sua esposa e o filho recém-nascido. Ia pensando em sacrifício. Que, para que houvesse um Buda, uma outra criança teve de crescer sem pai.
João Marcelo não é de olhar as pessoas. Mas um homem acabou de abrir uma escada sobre o teto da escola, uma escada alta, que ele parece ter dificuldade de firmar. João não vê o que vai por cima da escada, e vai esmorecendo o passo, intrigado com o porquê de se montar uma escada e nela subir, quando não há o que alcançar – nothing at all, reforça entre dentes. À medida que o homem sobe por um dos lados, a escada vai parecendo estar presa somente ao céu de feltro cinza, e João está de novo em frente à Catedral de Colônia, parado e desarmado, colhido de surpresa ao sair da estação de trem. João não chegou a entrar na Catedral, porque a visita à cidade limitou-se a uma reunião. Mas sua bagagem ficou mais leve depois que a viu.
Tinha parado sem querer. Voltou a si com um frêmito. Sentiu de novo o livro entre os dedos e pôs-se a andar, olhando a Catedral a espaços. A bagagem agora lhe pareceu pesar mais. Evitou chamar a atenção de um colega do escritório que viu passar do outro lado da rua. Não queria ser visto com a camisa de ontem. O homem chegara ao topo da escada, e tentava alcançar alguma coisa ainda mais alta, talvez em um poste certamente distante, e que João já não via desse ângulo do qual olhava, à beira da calçada, esperando pacientemente uma chance de atravessar a rua com segurança, garantindo que houvesse tempo suficiente para o colega do escritório dobrar, quem sabe, naquela esquina. A lotérica, por sorte, era na outra direção.
Quando João voltou a cabeça para o outro lado da rua, para planejar em que ponto subiria o meio-fio, não pôde deixar de ver, porque estava bem em frente a ele, também parado, como esperasse para atravessar a rua, um homem bem velho. Estava claro que travava uma luta com todos e cada um dos anos que vivera. Eles o queriam olhando para o chão, mas o velho, teimando, forçava o olhar para este lado da rua, não exatamente para João Marcelo, mas alguns metros à sua direita. Vendo-o assim alheio ao tráfego, mas próximo ao meio-fio, João primeiro temeu que tentasse uma travessia desavisada. Depois inquietou-o a insistência do olhar do velho e, curioso, olhou para a sua direita. Havia um grupo de pessoas tomando a calçada completamente, formando três ou quatro círculos concêntricos em torno de algo que, aparentemente, estava no chão. Satisfeito, João voltou a olhar adiante e, quando projetou seu corpo para frente, desequilibrando-se para andar, ouviu, à sua direita, um som que ouvia quando os dias eram diferentes entre si.
Capturado em meio ao movimento, João Marcelo não pôde evitar o primeiro passo em direção à rua. Percebendo que não seria possível chegar pela calçada para ver o que havia dentro dos círculos, preferiu seguir beirando os carros que se enfileiravam junto ao meio-fio. Entre dois deles, conseguiu subir ao passeio, parando atrás de um grupo de meninos que gritavam de excitação. Teria ainda tempo de ir à lotérica.
Sentada no chão, estava uma senhora de aparência muito frágil, doente. Tinha uma das pernas recolhida e, junto à outra, uma muleta. Sorria um sorriso quase sem dentes num rosto manchado e enrugado, e falava com simpatia com as crianças, que formavam os círculos mais internos. Estava recostada na parede com um travesseiro absolutamente encardido e, em torno dela, grandes caixas de papelão formavam um quase semicírculo, em que se dispunha um lençol que fora branco. As crianças estendiam efusivamente as mãos para o interior das caixas, sob o olhar dos pais, nos círculos externos, e de um rapaz, mais tenso, preocupado se as crianças eram bruscas demais, e vigiando o porta-malas aberto de um carro que estava ainda mais adiante.
Dentro das caixas, e sobre o lençol, João Marcelo contou mais de vinte filhotes de cachorro, de diferentes raças, todos aparentemente recém-desmamados. Os que estavam dentro das caixas subiam uns nos outros para tentar alcançar as mãos nervosas das crianças, ganhar um carinho, tocar-lhes com as patas. Por alguns instantes, as mãozinhas os sustentavam pelas patas dianteiras. Depois os soltavam, para receber ou buscar outro cachorrinho. Às vezes o cãozinho era simplesmente derrubado por um dos seus irmãos. João Marcelo deu-se conta então do alarido que faziam as crianças, os cãezinhos e os pais, uns querendo desesperadamente a atenção dos outros, aqueles para apontar um cachorrinho mais bonito ou valente, estes para que as crianças os tirassem das caixas, e estes últimos para tirar as crianças às caixas, entre arrependidos da aproximação e encantados com a imediata e profunda ligação que se estabelece entre filhotes de cão e filhotes de gente.
A senhora no chão, talvez prevendo que os pais acabariam por vencer os cabos-de-guerra em que se meteram, disse algo ao rapaz, que João não entendeu. Em torno dela, no lençol, estava a maioria dos cãezinhos, separados das crianças pelas caixas. Estas não podiam alcançá-los, e nem eles a elas, de modo que as atenções de uns e de outros, embora ponteada por uma manifesta curiosidade aqui e ali, estava no que havia de mais próximo e acessível. No caso das crianças, os cachorrinhos das caixas, que já iam ganhando nomes e se tornando objetos de disputas a respeito de qual o maior, o mais bonito, o mais inteligente. Para os cãezinhos do lençol, seus próprios irmãos, uma ninhada grande, de cães de pêlo brilhoso e avermelhado, e olhos muito vivos, de um tom de azul claro que poderia lembrar o céu, não tivesse este dia o céu que tem, claro, é certo, mas cinza, e sem janelas.
João Marcelo pensou em deixar o círculo, mas o rapaz, que tinha ido até o carro, voltava com um embrulho de pano do qual emergiam duas cabeças cinzentas de filhote de cão. Passou a perna por cima de uma das caixas e, aproximando-se da senhora, que nesse instante tossia para o lado, pousou sobre suas coxas, porque ela tinha as duas pernas agora estendidas, o embrulho. João não tinha reparado, e nem as crianças e seus pais, mas havia, do lado da senhora, no chão, sob a trave da muleta, um volume envolvido em um outro pano sujo, que poderia ser muito bem um dos cãezinhos, morto. Uma ferida antiga e de cicatriz muito pouco espessa começou a romper-se na alma de João Marcelo. Por alguns segundos, ele olhou fixamente através do pano sujo, onde aquela senhora tinha apoiado a sua muleta, e teve certeza de que ali embaixo estava um dos cãezinhos, morto. João murmurou alguma coisa inaudível, talvez um nome, e, compreendendo num relance a história por trás do quadro diante de si, desviou para senhora uns olhos tremeluzentes, com as órbitas levemente saltadas sob a fronte vincada. A senhora o olhava. João achou que ela tinha percebido que ele sabia. A senhora abriu para ele o largo sorriso desdentado e, afrouxando o embrulho que tinha sobre as coxas, sem tirar os olhos de João, soltou sobre o lençol o que nele havia.
Era um filhote de cachorro com duas cabeças. As crianças gritaram. João sentiu como que um baque, enquanto os pais faziam, em coro, um som grave, uma soma de vozes de espanto. Algumas crianças recuaram e olhavam para o lençol com os olhos arregalados. Outras escondiam os rostos nas pernas dos pais. Os filhotes que estavam nas caixas, abandonados, continuaram em seu esforço de sair, agora em desastradas tentativas por conta própria. O cãozinho de duas cabeças, indiferente, farejava o lençol com os dois focinhos. Era de cor cinza, porém claro, como o céu. Seus olhos, os quatro, eram todos negros, vítreos, profundos. Tinha o peito largo, e movia-se com desenvoltura, curioso, alerta. Uma das cabeças parecia mais altiva que a outra. Esta, como a primeira, prometia um cão imponente e austero, mas seu olhar era algo mais triste.
Não devia ser muito mais velho que os cães avermelhados que estavam no lençol com ele, e que claramente eram de outra raça. Aproximaram-se dele para festejá-lo, mas o cãozinho de duas cabeças, que era um pouco maior, repeliu-os para o centro do lençol, onde deitaram uns sobre os outros. O cãozinho de duas cabeças deitou junto à muleta da senhora que estava sentada no chão. Pôs uma cabeça no chão, a outra sobre as patas dianteiras cruzadas. Essa cabeça, mais orgulhosa, encontrou João Marcelo, levantando os olhos.
Vendo que o cãozinho serenara, as crianças começaram a recuperar-se do susto e agora gritavam a seus pais que o queriam, que o deixassem ver. Os pais, ainda assombrados, olhavam fixamente para o cãozinho de duas cabeças, que resfolegava. Já não tinham energia, como previra a senhora doente, para levar dali as crianças. Pondo a mão sobre o seu dorso, a senhora instava o cãozinho a levantar-se e ir brincar. Ele levantou as cabeças para os outros cães no lençol, depois para as crianças. Mas continuava deitado, as bocas entreabertas mostrando a língua escura e os dentes finíssimos, de filhote. Uma das crianças à frente de João ameaçou romper o cerco das caixas de papelão, mas foi contida por seu pai. O rapaz se levantou de onde estava para detê-la, mas sentiu que não era preciso fazer nada. Passou pela cabeça de João, como uma lança, o pensamento de comprar o cãozinho de duas cabeças, que as coisas agora seriam diferentes, que o protegeria de ser morto. Mas que só tinha o dinheiro da loteria, e que não tinha como explicar para a mulher, um cão de duas cabeças num apartamento tão pequeno, e de que tamanho ele...
O pensamento de João foi cortado por um grito. O rapaz avistara os fiscais, e já tinha pulado para dentro do semicírculo, e já estava com dois dos filhotes avermelhados, um em cada mão, para colocar em uma das caixas. A senhora doente começou a levantar-se com dificuldade. O rapaz gritava com alguém que estava no carro. Levantou novamente a cabeça e, confirmando a aproximação dos fiscais, pôs-se a gritar ainda mais nervoso que o viessem ajudar. As crianças começaram a chorar e os pais, aos trambolhões, as levavam ao colo, tentando sair todos ao mesmo tempo dali, alguns com bolsas de apetrechos e carrinhos. Algumas caixas foram deslocadas nessas tentativas, assustando os cãezinhos que estavam dentro e abrindo espaço para que os vermelhos ganhassem a calçada. Um deles ameaçou passar entre duas caixas, mas o cãozinho de duas cabeças rapidamente interpôs-se entre ele e a fuga. Chegou um menino, do carro, e pôs-se também a juntar os vermelhos nas caixas. A senhora levantara-se, e ergueu do chão o cãozinho de duas cabeças. Vendo que a chegada dos fiscais era iminente, o rapaz e o menino começaram a empilhar as caixas de papelão, com os cãezinhos dentro, e a levá-las para o carro. Isso abriu espaço para que dois ou três dos cãezinhos vermelhos, que ainda estavam no lençol, ameaçassem correr. Vendo isso, o cãozinho de duas cabeças livrou-se com um safanão da senhora da muleta, que já tinha um dos seus braços seguro por um dos fiscais. Os cãezinhos vermelhos tinham corrido para algumas crianças que ainda estavam por ali. Já não havia nenhum no chão. Na confusão, o cãozinho de duas cabeças corria de um lado para o outro, latindo para este e para aquele vermelho ao mesmo tempo, como a ordenar que voltassem. João Marcelo tinha dado um passo para trás, descendo do meio fio e postando-se entre os dois carros, por onde passara antes. Assistia a tudo envolto em surpresas e lembranças. Algumas surpresas eram causadas pelas lembranças.
O rapaz e o menino tinham retornado. O menino arrancou de uma criança menor um dos vermelhos, pegou outra caixa e voltou para o carro. Atrás dele partiu um dos fiscais. O rapaz lutava com o outro para que largasse sua mãe. João Marcelo viu que o cãozinho de duas cabeças parou sobre o lençol, farejando o ar e latindo. Quando encontrou o olhar de João, partiu para ele como uma flecha. João abaixou-se para colhê-lo e, sem perceber, largou no chão o livro de poemas com o volante da loteria. Voltando as costas para o que acontecia, saiu para a rua, andando rápido.
Ao dar as costas para o tumulto, com o cãozinho de duas cabeças bem seguro contra a camisa verde, à altura do peito, João Marcelo começou a sentir alegria e dúvida, em ondas, pelo corpo. Apertando o passo, fez o possível para tornar a si e ao cãozinho invisíveis, e de fato já haviam percorrido uma distância de quase meio quarteirão quando ouviu uma voz, e era o rapaz, gritando que parasse. Só então olhou para trás. Dois fiscais seguravam o rapaz pelos braços, tão de perto e com tanto esforço que era como se fossem unidos, três troncos e três cabeças em um só corpo. A dúvida em João quis saber se ele conseguiria correr, ele, o sedentário, ele, o homem da empresa. Mas a alegria havia ganho corpo de euforia, e João pôs-se a correr pela rua, contra o fluxo de carros. Ainda conseguiu correr bastante antes que o rapaz se desvencilhasse dos fiscais, e partisse atrás dele com ganas, e aos gritos. Os dois fiscais hesitaram algum tempo, discutindo se deveriam dividir-se ou não, até que um deles, atiçado pela distância que o rapaz lhes ia impondo, começou a correr no seu encalço. O outro, talvez entendendo que a senhora de muletas e o menino não iriam, sem o rapaz, a lugar nenhum com aquele carro cheio de caixas com filhotes de cachorro, saiu também a persegui-lo.
João Marcelo tinha mais de um quarteirão de vantagem para o rapaz, e corria como nunca mais correra, desviando-se das pessoas e carros que lhe apareciam no caminho. Ao chegar perto da segunda esquina, olhou para trás e viu que o rapaz conseguira ganhar algum terreno, afinal era bem mais novo, não vivia como João Marcelo e nem estava carregando um cãozinho de duas cabeças. Distraído com esses pensamentos, não ocorreu a João que, embora não passassem carros na rua transversal, o sinal poderia estar aberto, e de fato um carro vinha, sem que João soubesse. Quando o motorista viu João, acionou o freio e prendeu a direção com todas as forças que tinha. Os pneus guincharam e deslizaram no asfalto. O carro chegou a pegar de raspão em João, que se desequilibrou, mas, firme, prosseguiu na corrida. Vendo que escapara da morte, uma nova onda de euforia varreu-o, e João gritou, alto como podia, passando a correr no meio da rua, por sobre a faixa central, contra a correnteza. João Marcelo sentiu que um cavalo em sua alma galopava por ele, muito embora trouxesse o cão bem junto ao peito. Olhou para trás uma outra vez, e viu ainda mais próximo o rapaz, e os dois fiscais atrás dele. João correu ainda mais rápido, pensando em que nome daria ao seu cachorro. Mais rápido e mais rápido, foi deixando de sentir os passos tocarem o chão. Tudo era o vento. Sua mente estava livre, afinal. Lembrou de sua infância sem janelas. Viu abrirem-se, convidando-o, os portais da Catedral de Colônia, sentiu o cheiro da savana africana e o hálito de outros filhotes de cão. Olhando para o alto, conseguiu distinguir no céu uma nuvem. E assim, lembrando de tudo que um dia viveu, dobrou uma esquina e desapareceu.