(Inédito)
Olha pra mim: o rapaz que conheceste
deixou de ter razão, perdeu a força
de todas as certezas que embalava.
Melhor assim. Manso, sem cinismo,
acolho a tua mão na minha, e caminhamos.
Repara como os vincos no meu rosto
são quase um novo riso, desfalcado
daquele tom de urgência e de exagero.
A vida, enfim, causou-me certa mossa,
mas tudo se distrai na tarde baixa.
Escusa me esquecer de tantos sonhos,
o sonho do real calçou-me os passos
e a minha vida em ti: tudo o que conta.
Espólios de batalha se acumulam
no branco dos cabelos. Umas, duras,
outras vencemos sem armar exércitos.
A vida escapa, às vezes, da memória,
como não fora. É pouco ter vivido,
há que reter o bem e o mal nos olhos.
Essa uma dor, talvez.
Mas ainda experimento
a aurora, quando chegas.
Ainda sou louco por ti.